Quando você acha que finalmente reencontrou a felicidade e se atira a ela como se fosse o único pedaço de corda capaz de te salvar do penhasco sem fim da solidão é que ela, como num passe de mágica, some. É como se a corda arrebentasse logo depois de você ter tido certeza de que era bem firme.
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Solidão, segundo Hermann Hesse no Lobo da Estepe, é o lado negativo da tão sonhada e desejada liberdade. Imagine uma pessoa que mora sozinha, independente e distante dos pais, sem parentes por perto e solteira. Ninguém para dar satisfações, ninguém para te ligar quando já são 4h00 da manhã de segunda para terça e você ainda não deu as caras em casa. Essa pessoa pode fazer qualquer coisa a qualquer tempo, ela é livre!
Sim, mas também é só.
Em determinados momentos a solidão parece não mais que uma dor muito forte porém efêmera, como quando você bate o dedinho do pé na quina de um móvel, mas não é bem assim. Você pode até se esquecer da dor quando sai com seus amigos e joga a conversa pro ar, mas quando chega em casa e tudo que você vê no espelho da liberdade é você e só você é que é possível ver o tamanho do tumor que toma conta do seu corpo.
É difícil olhar para fora e entender o que há de errado. Por que existem tantas pessoas que não tem a mínima dificuldade em encontrar outra pessoa para se dividir, mesmo que seja algo fútil e passageiro? Por que outras pessoas parecem ter encontrado o par perfeito aos 20 e poucos anos? Por que aquela pessoa feia e/ou estúpida consegue ter um relacionamento e eu não? Só pode ter alguma coisa de errado com o mundo. Não... tem alguma coisa de errado comigo. Mas o que é?
Será que sou bonzinho demais ou sincero demais? E o que tem de errado nisso? Isso deveria ser um fator positivo e que atraísse as pessoas para o meu lado e não o contrário. Simplesmente não posso mudar meu jeito de ser só para ser aceito pela maioria da sociedade que não suporta ver nada mais que imagens retorcidas do seu próprio ser no espelho da realidade.
Às vezes eu acho que estou reclamando demais. Isso acontece, por exemplo, quando eu vejo uma pessoa com dificuldade de locomoção indo ao trabalho, estudando, ou simplesmente andando por aí como se nada o atrapalhasse – e isso é admirável. É nessas horas que eu me redimo e penso que os meus problemas não são nada perto dos reais problemas dos outros. E talvez seja aí que está o meu erro. Talvez eu deva pensar mais em mim e tentar entender o que realmente acontece e o que eu preciso melhorar.
Talvez seja o momento de me confrontar, de construir dois espelhos de mim mesmo: o Homem e o Lobo, o branco e o negro. Essa divisão dualista é considerada uma simplificação rasa da personalidade humana segundo as doutrinas orientais, mas o que eu busco não é me apoiar em qualquer um dos espelhos, o que eu realmente procuro é a área cinza, o terceiro espelho que só eu mesmo posso construir... ou destruir.
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