segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Espelhos


Quando você acha que finalmente reencontrou a felicidade e se atira a ela como se fosse o único pedaço de corda capaz de te salvar do penhasco sem fim da solidão é que ela, como num passe de mágica, some. É como se a corda arrebentasse logo depois de você ter tido certeza de que era bem firme.

...

Solidão, segundo Hermann Hesse no Lobo da Estepe, é o lado negativo da tão sonhada e desejada liberdade. Imagine uma pessoa que mora sozinha, independente e distante dos pais, sem parentes por perto e solteira. Ninguém para dar satisfações, ninguém para te ligar quando já são 4h00 da manhã de segunda para terça e você ainda não deu as caras em casa. Essa pessoa pode fazer qualquer coisa a qualquer tempo, ela é livre!
Sim, mas também é só.

Em determinados momentos a solidão parece não mais que uma dor muito forte porém efêmera, como quando você bate o dedinho do pé na quina de um móvel, mas não é bem assim. Você pode até se esquecer da dor quando sai com seus amigos e joga a conversa pro ar, mas quando chega em casa e tudo que você vê no espelho da liberdade é você e só você é que é possível ver o tamanho do tumor que toma conta do seu corpo.

É difícil olhar para fora e entender o que há de errado. Por que existem tantas pessoas que não tem a mínima dificuldade em encontrar outra pessoa para se dividir, mesmo que seja algo fútil e passageiro? Por que outras pessoas parecem ter encontrado o par perfeito aos 20 e poucos anos? Por que aquela pessoa feia e/ou estúpida consegue ter um relacionamento e eu não? Só pode ter alguma coisa de errado com o mundo. Não... tem alguma coisa de errado comigo. Mas o que é?

Será que sou bonzinho demais ou sincero demais? E o que tem de errado nisso? Isso deveria ser um fator positivo e que atraísse as pessoas para o meu lado e não o contrário. Simplesmente não posso mudar meu jeito de ser só para ser aceito pela maioria da sociedade que não suporta ver nada mais que imagens retorcidas do seu próprio ser no espelho da realidade.

Às vezes eu acho que estou reclamando demais. Isso acontece, por exemplo, quando eu vejo uma pessoa com dificuldade de locomoção indo ao trabalho, estudando, ou simplesmente andando por aí como se nada o atrapalhasse – e isso é admirável. É nessas horas que eu me redimo e penso que os meus problemas não são nada perto dos reais problemas dos outros. E talvez seja aí que está o meu erro. Talvez eu deva pensar mais em mim e tentar entender o que realmente acontece e o que eu preciso melhorar.

Talvez seja o momento de me confrontar, de construir dois espelhos de mim mesmo: o Homem e o Lobo, o branco e o negro. Essa divisão dualista é considerada uma simplificação rasa da personalidade humana segundo as doutrinas orientais, mas o que eu busco não é me apoiar em qualquer um dos espelhos, o que eu realmente procuro é a área cinza, o terceiro espelho que só eu mesmo posso construir... ou destruir.

sábado, 20 de novembro de 2010

Situação real


Ontem, no trampo, eu estava fazendo um negócio muito chato e repetitivo, mas é daquelas coisas que precisa de foco, sabe? Tratei de colocar meu fone de ouvido e ligar meu mp3 no talo. Pois bem, lá estava eu, ouvindo minha música e balançando a cabeça conforme o ritmo, quando de repente olho para o lado e vejo que tem alguém tentando falar comigo:

- Desculpa cara, o que vc falou?
Eis que o cara me olha com uma cara de espanto:
- Pô Rafa, to falando aqui faz tempo e vc não ouviu nada? Quer dizer que eu falei esse tempo todo sozinho?
- Desculpa, é que eu tava ouvindo minha música muito alto aqui, nem percebi que tinha alguém falando comigo.
- Porra cara, eu desabafando sobre a minha vida e vc nem prestou atenção!
- É cara... agora vc sabe como uma mulher se sente.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tapa na orelha


Bom, já falei dos discos que moldaram meu gosto musical ao longo dos anos, mas e o que tá rolando agora? Quais as novas bandas que eu ouço e recomendo?
Vamos aí pra série de posts!


Cascadura

Cascadura é uma banda baiana que... pera aí! Bahia?? É, Bahia. Sem axé, sem reggae, sem samba, sem putaria. Cascadura é rock straight to the point, em português e sem zabumba, cuíca, berimbau ou essas "brasileirisses" toscas que só interessam aos gringos e aos "descolados" de plantão.

E o que eu recomendo pra vocês? Olha, eu só conheço os dois últimos discos dos caras, mas mesmo assim acho que os caras merecem uma baita atenção.

O terceiro disco, Vivendo em Grande Estilo, é um disco com ótimas músicas e que nos mostra muitas influências do Fábio Cascadura e sua turma, mas pra mim ainda falta aquela consistência que une todo o disco e um pouco de originalidade.

O primeiro grande destaque do disco é a segunda faixa, Retribuição. Apesar de ela me lembrar muito Led Zeppelin por causa do riff principal e da levada na maior parte da música, o refrão é uma obra prima: tem um solinho de guitarra ao fundo que parece conversar com a voz e que ficou ótimo. E a segunda parte do solo de guitarra também é muito boa.
Ah, detalhe, o guitarrista do Cascadura nessa época era o Martin, que hoje toca com a Pitty! É... quebre seus preconceitos: o cara manda muito bem!


Mãe da Garota é uma música mais ao estilo Velhas Virgens, mas sem descambar pra putaria direta. Bom como o próprio nome diz, a música trata de uma sogra gostosona que dá em cima do genro. A música é muito divertida e tem um arranjo bem bacana. Mas de novo, parece que você já ouviu isso em algum lugar.

Não Posso Julgar Ninguém já aponta a direção que o Cascadura iria seguir no seu próximo disco. Aqui temos um arranjo original, uma letra que trata do cotidiano e que faz você se identificar rapidamente, além de oferecer uma reflexão bem simples sobre a situação. Talvez seja tão simples que faz você realmente pensar sobre o assunto.

Outras músicas interessantes do disco são Queda Livre e Gigante.


Mas é o quarto disco dos caras, o Bogary, que me fez correr atrás da banda e ficar na pilha de ver um show do Cascadura. É realmente a obra-prima deles. Aqui, tudo soa original e as músicas tem um mesmo clima. Tudo está muito bem arranjado, mas acho que o grande destaque aqui são mesmo as letras: bem construídas, diretas, simples e ainda assim profundas.

Pra mim, a melhor faixa do disco é Senhor das Moscas, que é inspirada no livro homônimo. Musicalmente falando é um tapa na orelha muito bem orquestrado e que dá vontade de sair berrando durante o refrão, mesmo quando você está no ônibus ouvindo o som no seu MP3. Puta energia.


O Centro do Universo é uma música particularmente dolorosa. Ela fala de um amor perdido. Mas não é aquela dor de cotovelo emo. Não. É coisa de gente grande: a história de um cara que perdeu a sua menina porque foi muito egoísta, acha que tudo é culpa dela e que um dia ela vai voltar pra ele, pedindo desculpas. É pessoal... eu já tive essa ilusão um dia, mas passou depois que eu encarei a situação real.

Caim é uma música interessante, mas acho que o acaba estragando um pouco ela é justamente o refrão alegrinho. Ainda assim, o verso tanto musicalmente quanto liricamente falando é sensacional, um pacote fechado que transmite exatamente o que a música pede.

Mesmo Eu Estando do Outro Lado é uma baladinha fácil com uma letra muito bem montada. Pra mim ela conversa muito com O Centro do Universo: é como se o carinha tivesse tomado coragem e ligado pra menina, tentando uma reconciliação (eu realmente fiz isso). A música refletia exatamente a minha situação na época e talvez por isso pareça tão boa assim pra mim.
Foi graças a esse telefonema aí que eu desencadeei um processo que me livrou de um dos maiores fantasmas da minha vida...

Onde Aprendeu a Andar é uma música que transmite uma maturidade assustadora. Logo na primeira audição não dá pra entender direito do que se trata, mas quando você pega a ideia e reflete sobre ela, percebe que o gênio é a pessoa que aborda os temas mais universais das maneiras mais simples, tão simples que podem até machucar. Parabéns ao Fábio Cascadura aqui, de verdade.


Contra-luz é uma música que pode te dar um belo soco na boca do estômago se você estiver naquela fase do relacionamento onde as conversas entre o casal não passam de mera formalidade, onde um apenas suporta a presença do outro, onde você só está com a pessoa por comodismo, por inércia, e não por realmente querer a sua companhia. Outra que diz muito sobre o meu passado...

Ele, o Super-herói foi a primeira música do Cascadura que eu ouvi e a que me despertou o interesse pela banda - vi o clipe na MTV e já saí correndo atrás do som dos caras pela net. Musicalmente você poderia dizer que o som se aproxima de um punk, dos bons, mas a letra mais uma vez é muito boa. Já imaginou como um super-herói se sente? Como ele tem que esconder seus medos e suas fraquezas sistematicamente todos os dias? Como tem que fingir que é sempre o melhor, o mais correto? Mas será que é isso que ele realmente queria ser?

Desconsolado é, de longe, a letra mais ousada do disco e sem dúvida uma das melhores. O instrumental aqui é um mero reforço para a letra que fala "desse Deus de medo e castigo. E o medo pra mim é a danação"...



Pronto, curtiu? Então vai ouvir!

domingo, 19 de setembro de 2010

Os discos mais importantes (pra mim!) - pt. 5


5. The Hellacopters - High Visibility



Esse é o último post dessa série e é sobre um disco que não mudou minha concepção de música como os anteriores, mas com certeza é um dos que eu mais ouvi na minha vida, se não for O mais ouvido.

Um dia, quando eu ainda tinha uns 16 anos eu estava assistindo à MTV, quando eu vi o clipe acima pela primeira vez. Quando ele terminou, eu estava ofegando - fiquei impressionado com a energia da música dessa banda que eu nunca tinha ouvido falar... difícil era lembrar o nome dos caras pra correr atrás do CD depois. Tive que anotar num pedaço de papel: Hellacopters - High Visibility.

O High Visibility inteiro tem um quê de Hard Rock dos anos 70, mas não tem aquela afetação típica nos vocais e nem aqueles vazio nas bases das músicas pesadas no estilo do Kiss. É... acho que é isso, parece anos 70, mas eu não tenho uma referência pra falar "olha, parece Led Zeppelin com AC/DC" não... parece Rock e do bom. Ponto.

Não espere ouvir aqui letras muito profundas ou que façam você refletir sobre algum assunto. Não, o negócio aqui é diversão, do início ao fim, sem muito compromisso, mas com ótimos solos de guitarras, um piano bem presente (isso, PIANO, não tecladinho-pentelho-anos 80), baixo bem feito e melodias fáceis, no melhor sentido possível.

Toys and Flavors, essa música que explodiu minha cabeça, foi o primeiro grande hit do Hellacopters mundo afora e também meu primeiro contato com essa banda sueca. Sim, sueca. É uma música que destaca bem todos os instrumentos, sem a burocracia de um Dream Theater, por exemplo ("ok, depois do solo de guitarra, vem o de baixo e daí o de teclado"), e além disso tem um refrão grudento demais.

Outra que foi single e que merece atenção é No Song Unheard. Pode-se dizer que é uma baladinha, mas não tem nada de muito amor aqui, a música é desacelerada e bonitinha, e só. Acho que talvez seja uma daquelas poucas baladas sinceras. O solo de piano em conjunto com a guitarra é a passagem mais bonita do High Visibility - uma coisa tão simples e tão sutil, mas que tem um feeling impressionante.

Outras músicas que destaco são Hopeless Case of a Kid in Denial, You´re Too Good (to me Baby), Throw Away Heroes e A Heart Without Home - essa com solo de duas guitarras ao mesmo tempo, não no estilo guitarras gêmeas do Iron Maiden, mas no estilo sangue nos olhos e "deixa eu solar também, porra!".

Resumindo: quer um disco de Rock bem animado, fácil de ouvir e com guitarras no talo? Anota aí: Hellacopters - High Visibility



sábado, 18 de setembro de 2010

Os discos mais importantes (pra mim!) - pt. 4


4. Queens Of The Stone Age - Songs For The Deaf



Antes de começar, gostaria de dizer que este post será mais longo e mais detalhado que os anteriores. Por quê? Muito já se falou sobre Beatles, Iron Maiden e Led Zeppelin, mas não existe tanto material assim sobre Queens Of The Stone Age e talvez você nem conheça a banda, então achei bacana dar uma destrinchada no assunto.

Eu sempre tento fugir do óbvio quando coloco vídeo para vocês assistirem, mas dessa vez não teve jeito. Go With The Flow é o melhor clipe do QOTSA e um dos meus favoritos de todos os tempos, tudo isso porque eu acho que é um dos poucos vídeos que captura perfeitamente o clima da música, isso sem falar dos efeitos, que são fenomenais.

Bom, mas e o álbum? O álbum é igualmente fantástico, difícil de digerir numa primeira audição, mas depois que você se acostuma com os padrões bizarros da banda, o negócio vai fácil. Ah, e antes que eu esqueça quem toca bateria nesse disco é o Dave Grohl, que mostrou nesse registro porque é considerado um dos melhores bateristas do mundo.

O Songs For The Deaf me abriu os ouvidos pra um som completamente novo e contemporâneo, coisa que até então eu era avesso, achando que só o antigo era bom. Graças ao QOTSA eu não sou uma viúva do Rock.

O disco pode ser considerado conceitual de certa forma, não porque conta uma história ou porque todas as músicas abordam um mesmo tema, mas sim porque o clima do CD é o mesmo nas 13 faixas que o compõe (na versão Deluxe são 15, com a inclusão da sensacional Mosquito Song). Além disso, as vinhetas são inspiradas numa viagem de carro que o Josh Homme (líder da banda) fez, retratando as várias estações de rádio que ele ouviu pelo caminho.

Antes de começar a escrever sobre os destaques, acho legal dividir as faixas em três grupos: as que são cantadas pelo Josh (6 músicas), as do Nick Oliveri (4 músicas) e as do Mark Lanegan (ex-Sreaming Trees) (3 músicas). A Song For The Deaf tem os vocais do Josh e do Mark, mas creditei pro primeiro porque é quem canta na maior parte da música.

Todos os singles do Songs For The Deaf são músicas do Josh, dentre eles o maior hit da banda, No One Knows, a já citada Go With the Flow e First It Giveth.

Duas músicas que têm o Homme nos vocais e que merecem bastante destaque são The Sky Is Falling e Song For The Deaf. Acho que o grande destaque da primeira é a combinação perfeita entre melodia e letra, extremamente densa e bem escrita. Destaque também para a discrepância entre o peso do instrumental e a leveza da melodia - ao final da música nem dá pra perceber que ela é tão pesada ou tão melodiosa...

Song For The Deaf, a música, é uma obra prima. A letra é extremamente bem construída e a melodia é linda. Por outro lado o instrumental é extremamente pesado e sinistro. A partir do solo de guitarra é possível ouvir uns gritos ao fundo - isso me traz à cabeça um passeio pelo inferno, num cenário avermelhado e é claro com um pouco de fogo por aí.

Eu diria que as músicas do Nick não contribuíram tanto para fazer desse álbum um dos meus preferidos de todos os tempos. Metade das que ele canta são berradas, não são ruins, mas também não são daquelas que você vai querer colocar no repeat. A minha preferida na voz do careca peladão do Rock In Rio III é Another Love Song.

Já as músicas do Lanegan estão entre as minhas preferidas do disco, acho que a Hangin´ Tree é a mais fraquinha.

Song For The Dead é um tapa bem dado na orelha. Já começa com a introdução fodástica de bateria, tem uma letra macabra e um vocal arrepiante. Impressionante como essa música ganha ainda mais força ao vivo.

God Is in the Radio é um blues extremamente pesado com ótimos solos de guitarra e tem o melhor refrão do CD inteiro - foi justamente com essa que eu comecei a "engolir" o disco. Segue de brinde pra amaciar os tímpanos: